a verdade como o silêncio, existe apenas onde não estou. o silêncio existe por trás das palavras que se animam no meu interior, que se combatem, se destroem e que, nessa luta, abrem rasgões de sangue dentro de mim. quando paro de pensar e me fixo, por exemplo, nas ruínas de uma casa, há vento que agita as pedras abandonadas desse lugar, há vento que traz sons distantes e, então, o silêncio existe nos meus pensamentos. intocado e intocável. quando volto aos meus pensamentos, o silêncio regressa a essa casa morta. é também aí, nessa ausência de mim, que existe a verdade. (...)
José Luis Peixoto in "'cemitério de pianos'
P.s. sinto a tua falta Sandra!
morrer
é uma arte, como outra coisa qualquer.
e eu executo-a excepcionalmente bem.
executo-a de forma a parecer-se com o inferno.
executo-a de forma a parecer real.
acho que se podia dizer que tenho um dom.
é bastante fácil executá-la numa cela.
é bastante fácil executá-la e ficar como se nada fosse.
é cena de teatro
regressar em pleno dia
ao mesmo lugar, ao mesmo rosto, ao mesmo brutal
e divertido grito:
um milagre!
que me põe k.o.
há que pagar.
para ver as minhas cicatrizes, há que pagar
para ouvir o meu coração —
é assim mesmo.
(...)
'a senhora lázaro', sylvia plath
é uma arte, como outra coisa qualquer.
e eu executo-a excepcionalmente bem.
executo-a de forma a parecer-se com o inferno.
executo-a de forma a parecer real.
acho que se podia dizer que tenho um dom.
é bastante fácil executá-la numa cela.
é bastante fácil executá-la e ficar como se nada fosse.
é cena de teatro
regressar em pleno dia
ao mesmo lugar, ao mesmo rosto, ao mesmo brutal
e divertido grito:
um milagre!
que me põe k.o.
há que pagar.
para ver as minhas cicatrizes, há que pagar
para ouvir o meu coração —
é assim mesmo.
(...)
'a senhora lázaro', sylvia plath
Auto Retrato
Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado
nem na polpa dos meus dedos
se ter formado o afago
sem termos sido a cidade
nem termos rasgado pedras
sem descobrirmos a cor
nem o interior da erva.
Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado
minha raiva de ternura
meu ódio de conhecer-te
minha alegria profunda
Maria Teresa Horta
e nunca me disseram o nome daquele oceano
....esperei sentada à porta... dantes escrevia cartas
punha-me a olhar a risca de mar ao fundo da rua
assim envelheci... acreditando que algum homem ao passar
se espantasse com a minha solidão
...
(anos mais tarde, recordo agora, cresceu-me uma pérola no coração. mas estou só, muito só, não tenho a quem a deixar.)
um dia houve
que nunca mais avistei cidades crepusculares
e os barcos deixaram de fazer escala à minha porta
inclino-me de novo para o pano deste século
recomeço a bordar ou a dormir
tanto faz
sempre tive dúvidas que alguma vez me visite a felicidade ...
Al Berto
O dia deu em Chuvoso
O dia deu em chuvoso.
A manhã, contudo, esteve bastante azul.
O dia deu em chuvoso.
Desde manhã eu estava um pouco triste.
Antecipação! Tristeza? Coisa nenhuma?
Não sei: já ao acordar estava triste.
O dia deu em chuvoso.
Bem sei, a penumbra da chuva é elegante.
Bem sei: o sol oprime, por ser tão ordinário, um elegante.
Bem sei: ser susceptível às mudanças de luz não é elegante.
Mas quem disse ao sol ou aos outros que eu quero ser elegante?
Dêem-me o céu azul e o sol visível.
Névoa, chuvas, escuros — isso tenho eu em mim.
Hoje quero só sossego.
Até amaria o lar, desde que o não tivesse.
Chego a ter sono de vontade de ter sossego.
Não exageremos!
Tenho efetivamente sono, sem explicação.
O dia deu em chuvoso....
Álvaro de Campos
Pensamentos...
Sou um evadido.
Logo que nasci
Fecharam-me em mim,
Ah, mas eu fugi.
...Se a gente se cansa
Do mesmo lugar,
Do mesmo ser
Por que não se cansar?
Minha alma procura-me
Mas eu ando a monte,
Oxalá que ela
Nunca me encontre...
Fernando Pessoa
IMAGEM do DIA no LIQUID IMAGES
IMAGEM do DIA no LIQUID: Sofia Carvalho, s/t.
Com publicação garantida na próxima edição da revista DP- Arte Fotográfica
Em toda a noite o sono não veio...
Em toda a noite o sono não veio. Agora
Raia do fundo
Do horizonte, encoberta e fria, a manhã.
Que faço eu no mundo ?
Nada que a noite acalme ou levante a aurora,
...Coisa séria ou vã.
Com olhos tontos da febre vã da vigília
Vejo com horror
O novo dia trazer-me o mesmo dia do fim
Do mundo e da dor
Um dia igual aos outros, da eterna família
De serem assim.
Nem o símbolo ao menos vale, a significação
Da manhã que vem
Saindo lenta da própria essência da noite que era,
Para quem
Por tantas vezes ter sempre esperado em vão,
Já nada espera.
Fernando Pessoa
Nina Simone - Ain't Got No...I've Got Life
Nada me causa mais repulsa nesta vida de que conviver com pessoas com a mania que irão ficar por “cá” para sempre.
Esta música é dedicada a todos os “lambe botas” que conheço, a todos aqueles que tem “algum poder” e se acham senhores do mundo, quando na realidade nem deles próprios são donos...
Minhas Senhoras, e meus Senhores aqui fica uma musica para reflectir sobre o verdadeiro significado da vida:
Não tenho casa, não tenho sapatos,
Não tenho dinheiro, não tenho classe,
Não tenho amigos, não tenho estudos,
Não tenho emprego
Não tenho dinheiro, nenhum lugar onde ficar
Não tenho pai, não tenho mãe
Não tenho filhos, não tenho irmãos
Não tenho terra, não tenho fé
Não tenho nenhum Deus
Não tenho amor.
Não tenho vinho, nem cigarros
Não tenho roupa, nenhum País
Nenhuma classe, sem estudos
Sem amigos, sem nada.
Não tenho Deus.
MAS O QUE É QUE EU TENHO?
DEIXA-ME CONTAR-TE O QUE TENHO
PORQUE ISSO NINGUÉM ME VAI TIRAR:
Eu tenho o meu cabelo
Tenho o meu CÉREBRO, tenho as minhas orelhas
Tenho os meus olhos, tenho o meu nariz
Tenho a minha boca, tenho o meu sorriso
Tenho minha língua, tenho meu queixo
Tenho o meu pescoço, tenho os meus seios
EU TENHO O MEU CORAÇÃO, A MINHA ALMA
Tenho as minhas costas, o meu sexo.
Tenho os meus braços, tenho as minhas mãos
Tenho os meus dedos, tenho as minhas pernas
Tenho os meus pés, os meus dedos dos pés
Tenho meu fígado, tenho meu SANGUE.
TENHO VIDA....TENHO A MINHA VIDA...
...Mas eu, em cuja alma se refletem
As forças todas do universo,
Em cuja reflexão emotiva e sacudida
Minuto a minuto, emoção a emoção,
Coisas antagônicas e absurdas se sucedem -
Eu o foco inútil de todas as realidades,
Eu o fantasma nascido de todas as sensações,
Eu o abstrato, eu o projetado no écran,
Eu a mulher legítima e triste do Conjunto
Eu sofro ser eu através disto tudo como ter sede sem ser de água...
Álvaro de Campos
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